quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Por mais choques de realidade

A imagem do corpo do menino sírio, Aylan Kurdi, de apenas três anos, à beira do mar, em Bodrum, Turquia chocou o mundo. A fotografia rodou nas edições dos principais jornais do mundo. Alguns com uma cobertura mais honesta, trazendo, neste caso, a foto-notícia como ela é. Escancarando ao mundo questões humanitárias gravíssimas. Outros, sobretudo periódicos nacionais, optaram por amenizar o fato. Trouxeram fotos de menor impacto ou com avisos de conteúdo forte, agressivo. Nesse caso, tentaram, erroneamente, amenizar a realidade. A realidade é ruim demais para ser amenizada. Deve ser, ao contrário, escancarada.

Os veículos que decidiram publicar a imagem na íntegra, sem avisos, sem distorções, sem "anestésicos" foram duramente criticados. A sociedade de hoje, que é a do espetáculo, do mimimi, não aguenta choques de realidade, é frouxa. Essa sociedade, por vezes, não entende que o papel do jornal e do jornalista é exatamente este. Informar não é tão somente tornar público aquilo que deve ser público. É trazer a realidade como ela é, esgarçando mazelas, impactando, por fim, informando. Mesmo que isso cause náuseas. Os anestesiados irão, vez ou outra, sucumbir à realidade. 

Voltando ao caso em si, por que a publicação daquela foto é tão importante assim? A imagem, feita por Nilufer Demir da Reuters, traz consigo não só a crise migratória vivida pelo continente europeu, mas também, remete-nos a causa do problema. A foto-notícia, que tem se tornado cada vez mais escassa, tem essa característica. O que são números de mortos quando em uma fotografia eu visualizo o massacre? De estatísticas, estamos fartos. Não que não sejam importantes, mas não surtem os efeitos que uma imagem produz. A imagem do menino Aylan Kurdi condensa a falência de um povo e de toda uma região.

A guerra civil que há quatro anos assola a Síria, produz milhares de refugiados diariamente. O fortalecimento do Estado Islâmico é outro fator que contribui para a crise migratória. A crise tende a piorar e, na verdade, tende a se tornar uma crise humanitária e étnica dentro do velho mundo. 

O ocidente não é o culpado por todos os problemas do mundo, mas é o único capaz de buscar soluções para tal. O discurso de que o ocidente não deve se intrometer nos problemas do Oriente Médio é leviano. Os EUA, atolados  nas fracassadas incursões sobre Iraque e Afeganistão e sob a frouxa administração Obama, deixou o Oriente Médio, se é que é possível, mais caótico. O resultado: bem, a Europa e as populações dizimadas conhecem bem. Aylan Kurdi conheceu da pior maneira possível.

Para que possa ser evitado, o horror deve ser visto.
Policial turco ao lado do corpo de Aylan Kurdi. Foto: Reuters/Nilufer Demir

Nenhum comentário:

Postar um comentário