quinta-feira, 27 de março de 2014

Engenhão: de quem é a culpa? Quem paga a conta?

No último dia (26/03) completou um ano que o estádio olímpico João Havelange, mais conhecido como Engenhão, está fechado por interdição da prefeitura do Rio de Janeiro. Em 2013, a consultoria alemã SPB detectou falhas na estrutura da cobertura do estádio. O relatório alemão alertava que, caso os ventos na região do estádio ultrapassassem 70 km/h, a cobertura corria sérios riscos de desabar. Com base nesse relatório,o prefeito do Rio, Eduardo Paes, determinou a interdição do estádio.

Meses após a controversa interdição a prefeitura anunciou um novo projeto para reforçar as estruturas que dão sustentação à cobertura. A Odebrecht, empreiteira responsável pela obra em 2007 depois que o antigo consórcio composto pela Delta desistiu da obra, gere e paga o novo projeto. Segundo a empreiteira,o custo total do novo projeto ainda não foi estimado. Trabalham cerca de 340 operários na obra que não deve mudar o design original do estádio, segundo informações da Odebrecht.

Segundo reportagem da ESPNBrasil, engenheiros que participaram da obra para o Pan de 2007 afirmaram que houve falhas no projeto e na execução da obra. Segundo eles, inaugurado às pressas, o Engenhão não poderia ter sido inaugurado para o Pan, pois as estruturas saíram do eixo durante a competição. O Conselho Regional de Engenharia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) identificou que o engenheiro responsável por validar a obra não possui registro de trabalho no Brasil. Tiago Abecassis, responsável por validar a obra, é português. Tiago será denunciado pelo Crea-RJ por exercício ilegal da profissão.

O Botafogo, clube que arrendou o estádio por 20 anos após o Pan, calcula prejuízos. Segundo Sérgio Landau, diretor-executivo do Botafogo, o clube perdeu em 2013 entre R$ 20 e R$ 25 milhões em contratos. Até a reabertura do estádio, Landau calcula que o prejuízo deve alcançar a cifra de R$ 45 milhões. Apesar de resultados satisfatórios dentro de campo, o Botafogo conviveu com atraso de salários após o fechamento do estádio. A interdição só agravou a já ruim situação financeira do clube. O Botafogo agora pensa em contratos e patrocínios para 2015.

Como botafoguense só posso lamentar os prejuízos que o Botafogo teve. Prejuízos que obrigaram o clube a vender importantes jogadores durante o Campeonato Brasileiro do ano passado e que ainda fazem falta neste ano. Como cidadão e contribuinte é minha obrigação cobrar das autoridades explicações sobre esse caso. Um estádio que custou quase 400 milhões de reais aos cofres públicos e que tinha apenas 6 anos de uso desde sua inauguração não poderia apesentar problemas graves como apresentou. A construtora responsável irá pagar os custos da reforma, mas e os prejuízos do Botafogo? Será que alguém vai pagar a conta do Botafogo, maior prejudicado da história? Creio que não. 
Esse caso levanta ainda outros questionamentos. Construído para o Pan o estádio seria um dos legados da competição, mas será que é? Dando prejuízos pouco tempo depois dos jogos ele é mais um dos problemas deixados pelo Pan. E mais. O Engenhão foi construído às pressas -o que foi apontado como uma das causas de seus problemas estruturais - assim como muitos estádios da Copa do Mundo. Será que o legado da Copa será como o legado do Pan? Estádios caros e novos com problemas estruturais. Alguns estádios ainda não estão prontos e serão entregues em cima da hora como o Engenhão foi. Esperamos que esses estádios não sejam como o Engenhão e sejam bons legados ao fim do mundial. Como botafoguense espero que o Botafogo possa recuperar o que foi perdido. 
Na foto: O belo estádio Engenhão. 

terça-feira, 25 de março de 2014

1964 + 50

No próximo dia 31/03 completar-se-á cinquenta anos do golpe militar de 1964. Levando-se em conta a data, o jornal O GLOBO vem fazendo uma série de reportagens em suas páginas contando alguns detalhes do regime. No último domingo, por exemplo, o jornal trouxe cerca de oito páginas dedicadas ao tema. Não é novidade, que no ano passado, o mesmo jornal fez sua mea-culpa sobre o golpe. Explicando-se por que apoiou o golpe à época. Agora, com uma tendência oposta a de 50 anos atrás, o jornal tenta se redimir.

O regime militar em si é indefensável. Foram 20 vintes de uma ditadura que cerceou as liberdades individuais, cassou oposicionistas e caçou opositores. Além, é claro, de uma política econômica estatista e nacional-desenvolvimentista que é pra lá de duvidosa. Porém, como disse Delfim Netto - economista e ministro da fazenda durante o regime - "a história passa por onde ela deve passar".  Há cinquenta anos o Brasil estava entre a cruz e a espada. Eram os militares ou os comunistas. Ocorreu uma corrida para o golpe, que os militares saíram vitoriosos.

Hoje, cinquenta anos depois, a história é reescrita. O jornal que apoiou o golpe, promoveu-o e se beneficiou com ele muda de figura.  A Comissão Nacional da Verdade instituída pela presidente Dilma, que à época disse não se tratar de revanchismo, comporta-se pior, comporta-se de maneira vingativa. Os crimes cometidos pelos militares são investigados, os crimes cometidos pelo outro lado não. A Comissão da Verdade remete-nos a obra de George Orewell e não apenas se parece com ela, mas tem os mesmos objetivos. Repintar a história com outras cores. Criminosos de outrora são tidos hoje como heróis nacionais, símbolos da resistência democrática. Um Che Guevara brasileiro não deve demorar para nascer. 

Hoje dividem a história em bonzinhos e malvados. Vítimas e opressores. Democratas e fascistas. O fato, porém, é que não há lados na história, somente fatos. É assim que a história se constitui. Boa parte dos terroristas de ontem estão agora em Brasília dirigindo o país, recontando a história a sua maneira.Os rumos do Brasil são incertos assim como há 50 anos.
Imagem retirada da web. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

O problema é nosso

O tão esperado evento do ano está prestes a acontecer. Faltam pouco mais que 90 dias para  a bola rolar na Copa do Mundo Fifa 2014 aqui no Brasil. No dia 12 de junho deste ano, com obras prontas ou não, com mobilidade urbana ou não, com manifestações ou não, querendo ou não, haverá Copa. Os jogos ocorrerão. Aos trancos e barrancos os caros e suntuosos estádios estarão lá, prontinhos para suas partidas de futebol. O 'mimimi' agora já não adianta mais. Então, nos foquemos nos próximos 'mimimi's'.

Doze são os estádios que receberão jogos nesta Copa do Mundo, de norte a sul do país. Porém, a conclusão que eu tiro desse número é a seguinte: estádios demais para futebol de menos.  O que primeiro vem até nossas cabeças ao analisar essa situação são os elefantes brancos, aqueles estádios como o de Manaus e Cuiabá que, teoricamente, não têm um campeonato ou times fortes que justifiquem estádios como aqueles. O que deve ser pensado e discutido. No entanto, o que pouca gente pensa é se os estádios do eixo sul-sudeste - que tem os times mais fortes - serão tão bem aproveitados como se imagina.

Um apanhado dos números dos campeonatos estaduais, da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro do ano passado mostram um abismo nessas competições. Os principais campeonatos estaduais apresentaram números pífios de público. O Campeonato Mineiro foi o melhor colocado, com uma média de 6.451 pagantes. O Paulistão vem logo em seguida com uma média de 6.217 pagantes. O Campeonato Carioca foi só o nono colocado, com uma média  2.422 pagantes e o Gaúcho em décimo com média de 2.219 pagantes. "Ah, mas estadual é falido mesmo" vai falar alguma língua afiada. Entretanto, as duas principais competições nacionais também apresentaram números ínfimos no ano passado. O Brasileirão teve média de 14.951 pagantes em seus jogos. Enquanto que a Copa do Brasil foi pior que alguns estaduais e apresentou média de 2.622 pagantes por jogo. A nível de comparação, o campeonato do "país do futebol" teve menos público que o campeonato americano de futebol. Pois é, americano nem liga pra futebol, mas lotou mais estádios que o "apaixonado brasileiro". Nem irei comparar com os campeonatos europeus porque seria uma surra.

De novo, 12 são os estádios da Copa, mas e o futebol? A impressão que fica é a de que fizeram a festa, mas se esqueceram de convidar o aniversariante. A Copa e os belos estádios irão revigorar a paixão do brasileiro pelo futebol? Duvido muito, senão já teria ocorrido após a Copa das Confederações. Não é o caso. Os estaduais continuam esvaziados e a tendência é de piorar.

Em tempo, mais uma Arena foi inaugurada neste fim de semana. Foi a Arena da Amazônia, em Manaus. Candidata a  ser mais um elefante branco, o governador do Amazonas, Omar Aziz, não gostou de ser perguntado por um repórter da ESPN Brasil sobre a utilidade do estádio. A resposta de Aziz foi: "isso não é problema teu. É problema do povo amazonense. Não é da imprensa do sul, é nosso, do povo amazonense." É bom lembrar ao ilustre governador que seja do Amazonas ou do Rio Grande do Sul o dinheiro gasto nesses estádios é dinheiro público. Meu, seu, nosso. Não importa de onde seja. Afinal, o Amazonas ainda faz parte do Brasil. Governador, o problema é nosso, do povo brasileiro. Não se esqueça disso.
Na Foto: Logo oficial da Copa.
*Com informações de: globoesporte.com e futdados.com.br

sexta-feira, 7 de março de 2014

Clamar pela volta dos militares é tiro no pé, é burrice da direita

Está marcada para o dia (22/03), em São Paulo, a segunda edição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Há 50 anos, a primeira edição da manifestação contou com milhares de adeptos e foi organizada por setores conservadores da sociedade. À época,  a mobilização tinha como objetivo ser uma resposta a um comício realizado no mesmo mês, no Rio de Janeiro, pelo então presidente João Goulart. Em seu comício, Jango lançou as bases para uma forte tendência ao socialismo. Dias após a marcha o presidente foi deposto no que se classifica como intervenção militar, em seguida, teve início um governo de exceção. Hoje, a marcha é organizada pelo Facebook e tem como objetivo revigorar os valores conservadores da sociedade brasileira, além é claro, de ser uma manifestação contra o atual governo de esquerda e suas ideologias socialistas. 

Há 50 anos, o Brasil vivia um momento crítico, a Guerra Fria estava a todo vapor e o governo brasileiro dava claros sinais de que a guinada ao comunismo não iria tardar. Foi um movimento legítimo, necessário. O Brasil não queria mergulhar num comunismo ao estilo cubano. Ou em qualquer tipo de socialismo. O que aconteceu depois foi um desvio de percurso. O comunismo não era bem-vindo, nem uma ditadura militar.

Hoje é possível encontrar pela internet diversos vídeos e textos de pessoas explicando a diferença entre um golpe militar e uma intervenção militar. Também não é difícil de encontrar páginas no Facebook que pedem uma intervenção militar. E agora, a mesma marcha emblemática de 50 anos atrás acontecerá novamente. Como o leitor sabe, sou conservador em diversos aspectos sociais e políticos, me posiciono abertamente como sendo de direita, porém, estas conjecturas que se montam atualmente requerem cautela, prudência e análise crítica. A direita  brasileira não pode cometer o mesmo erro duas vezes. 

O PT é hoje o maior inimigo deste país. Merece e deve ser combatido, assim como a eferverscência de ideias de esquerda. No entanto, isso deve acontecer no campo ideológico e político. Temos de esmagá-los com ideias e organização. Liberais e conservadores devem deixar suas arestas de lado e começarem a pensar numa direita organizada a fim de que erros do passado não aconteçam novamente. A Marcha que ocorrerá este mês é essencialmente conservadora, exclui  participação dos liberais. Não devemos deixar lacunas, pois estas lacunas serão ocupadas pela esquerda gramsciniana. 

Há também outro risco nesse pequeno fervor por uma intervenção militar. Há 50 anos, os militares chegavam ao Palácio do Planalto com os mesmos intuitos destes que clamam por uma intervenção; dissolver as instituições, formar um governo de coalizão, marcar eleições e deixar o poder, porém, o que se viu foi um regime autoritário, anti-democrático, estatista, centralizador que só fez o que prometeu mais de 20 anos depois de ter subido ao poder. Portanto, cautela ao clamar pelos militares, pois o tiro poderá sair pela culatra mais uma vez e a direita pode novamente ficar estigmatizada por uma ditadura que foi militar, mas não de direita, não da direita que eu me identifico.Os militares nos livraram de uma ditadura comunista, mas a que preço? Se teve um período em que os ideais da esquerda mais prosperam foi durante o tempo dos militares. E essa prosperidade da esquerda resultou no governo petista de hoje. Defender a volta dos militares é tudo o que a esquerda quer e precisa nesse momento. Ainda não somos a Venezuela, a mudança pode ser política, mas isso requer organização.

Na foto: Capa do Jornal Do Brasil há 50 anos.