quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Isonomia, militância e dinheiro público

Início de ano é comum que vejamos vários anúncios de empregos, estágios, mas principalmente de concursos públicos. Governo federal, estatais, estados, municípios. São muitas as opções de concursos nesta época do ano. Mas, não estou aqui para falar das oportunidades de emprego neste começo de ano ou do funcionalismo público. Um edital de concurso para o estado do Rio de Janeiro me chamou bastante atenção. Curioso também, é que em nenhum grande veículo de comunicação ou na chamada 'imprensa  alternativa' vi debates ou mesmo notícias sobre o dito edital.

Trata-se, portanto, de um edital recém-divulgado pelo Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas  e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (CEPERJ) que pode ser conferido AQUI. Mas qual seria o grande problema deste edital ? A questão é exposta sem meias-palavras loga na apresentação do edital:

 "A Fundação CEPERJ, no uso de suas atribuições legais, tendo em vista o convenio n° 
774865/2012 firmado junto ao Ministério da 
Saúde, estabelece os critérios de seleção destinado ao preenchimento de 100 vagas no 
Curso de Formação de Ativistas/Lideranças LGBT para o Controle Social no Sistema Único 
de Saúde. "

É isso mesmo que você, leitor, acabou de ler. Sem tirar nem pôr. O estado do Rio de Janeiro abriu concurso público para preenchimento de vagas no curso de formação militante. O estado do Rio de Janeiro está usando dinheiro do contribuinte para formar militantes da causa gay. Não sei quanto ao âmbito legal, mas moral e eticamente isso é um absurdo tamanho.

Vamos pôr os pingos nos is. Toda e qualquer tipo de militância deve ser organizada e financiada por partidos políticos, ONGs, associações e coisas do tipo.No entanto, usar dinheiro público para financiar e organizar ativismo é algo completamente inaceitável no meu entender. Novamente, não sei sobre os limites legais que o governo estadual pode ou não estar infringindo, entretanto essa não é a questão. Numa sociedade, principalmente numa sociedade republicana, há outros limites que não os da lei que também devem ser respeitados. São os limites impostos pela ética  e pela moral. Num caso como este, onde o governo financia uma certa militância, há uma grave ameaça aos princípios isonômicos  que regem a República. Os tributos que nós, contribuintes, pagamos são um bem comum a toda sociedade brasileira e como tal devem ser aplicados de modo que beneficie a sociedade como um todo. Desse modo, o que o governo do Rio faz é esculhambar com a isonomia de nossa República. Eu, como contribuinte, sou veemente contrário ao Estado usar um recurso, que também é meu, a fim de beneficiar um certo setor da sociedade. Algo de escabroso assola nosso jovem e frágil sistema democrático.



sábado, 18 de janeiro de 2014

Bate-bola, fascismo e direita

Na última quinta-feira (16/1), enquanto assistia ao programa "Bate-Bola" na ESPN Brasil, um dos comentários de João Carlos Albuquerque - apresentador da segunda edição do programa - me chamou a atenção. Os comentaristas Paulo Vinícius Coelho - o PVC - e Leonardo Bertozzi analisavam a saída do meia Seedorf do Botafogo para começar nova carreira, agora fora dos campos, como técnico do Milan. Os comentaristas destacaram o fato de Seedorf ser o primeiro negro a comandar o Milan. Então, João Carlos Albuquerque diz, lembrado por PVC, que Berlusconi - dono do Milan e ex-primeiro ministro da Itália - é de direita, mas enfatiza o fato de Berlusconi contratar Seedorf e completa dizendo: "é muito diferente daquela extrema-direita racista do fascismo e do nazismo".


Quando ouvi os comentários do apresentador do programa  me perguntei: "mas ainda acham que a direita é sinônimo de racismo e, principalmente, de fascismo e nazismo ? Mas quanta confusão." O pensamento do experiente jornalista corrobora que há uma confusão entre saber o que é direita e o que é fascismo. Ainda hoje, muitas pessoas relacionam a direita política com o velho regime totalitário. Porém, há contradições essenciais - no mais específico significado da palavra - entre direita política, fascismo e nazismo.

Primeiramente, acho importante dizer o que, no meu entender, é direita política. Para mim duas coisas são essenciais para esclarecer o pensamento de direita: o conservadorismo político e o senso de liberdade. A direita a qual me identifico é aquela em que há o conservadorismo político, o senso de liberdades individuais antes do senso de igualdade, senso de indivíduos antes de senso de classes e é aquela em que admite apenas o regime democrático e o livre mercado. 

Agora explico o porquê de  não haver razões essenciais para assimilar fascismo e nazismo à direita política. Uma das características essenciais do pensamento nazifascista é que ele rejeita completamente a ordem social vigente. Por exemplo, o nazifascismo é contra as democracias liberais, é contra o livre mercado e contra as liberdades individuais. Assim, dentro da lógica nazifascista é necessário um poder inquestionável, maior do que tudo e todos para romper com essa ordem vigente. Esse poder é o Estado. Portanto, por buscar um poder máximo, inquestionável que rompa com a ordem vigente o nazifascismo se diferencia do conservadorismo político da direita. Na verdade, a lógica que busca romper a ordem social vigente é uma característica da esquerda. Mas continuemos. Ao assumir que o Estado deve ser o grande regulador da sociedade o nazifascismo rompe  com mais uma característica da direita; a que garante liberdades individuais. Benito Mussolini dizia: "Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado." 

Assim, infere-se, que a lógica do pensamento nazifascista tange muito mais o espectro da esquerda. Seguindo a lógica Russoniana, o nazifascismo acredita que todos os problemas da humanidade estão na sociedade corrompida e nunca no indivíduo, deste modo, assim como o marxismo o nazifascismo busca destruir a sociedade atual a fim de construir uma nova, ideal e perfeita.

Mas por que o nazifascismo é atribuído à direita e não á esquerda ? Creio que quatro sejam as respostas para esta pergunta. Na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini algumas características da sociedade não foram destruídas pelo regime, foram apenas usadas e transformadas. São elas: a religião, a família, o capitalismo e o comunismo. Diferentemente do comunismo - principal vertente do pensamento de esquerda - o nazifascismo não pretendeu destruir a família, a religião ou o capitalismo, mas sim cooptá-los em beneficio próprio. A religião foi usada pelo Estado fascista italiano como forma de controle social. As bases da família não foram destruídas, ao contrário, foram fortalecidas para que o Estado fascista pudesse se fortalecer. O capitalismo não foi abolido, porém, o livre mercado desapareceu completamente. O Estado engoliu o controle do capital. Como o comunismo era a principal vertente da esquerda no século XX houve uma relação de conflito entre comunismo e nazifascismo, pois o nazifascismo era outra vertente da esquerda, mas que se diferenciava pelas características acima citadas. Portanto, o comunismo e o nazifascismo se tornaram rivais. Como o nazismo de Hitler era anti-comunista por motivos que desconheço, creio que pela aversão aos povos eslavos, e o fascismo de Mussolini por motivos estratégicos ficou condicionado que o nazifascismo foi um movimento da extrema-direita, corroborado ainda pelo fato de a URSS ter ganhado a Segunda Guerra. Os regimes nazifascistas eram extremamente racistas a ponto de promoverem genocídios, como foram costumeiramente atribuídos à direita também atribuíram à direita o racismo.

Vivemos numa dicotomia política entre direita e esquerda cada uma com muitas vertentes que se diferenciam em grau e muitas vezes em essência, mas ambas têm características que as definem. Direita está ligada ao conservadorismo político, liberdade, indivíduos e pessimismo. Já o pensamento de esquerda - não necessariamente marxista - se pauta pela revolução, igualdade, classes, sociedade e idealismo utópico. Dito isto, é complicado classificar nazismo e fascismo em um desses espectros políticos, entretanto no meu entender, tais regimes tangem, essencialmente, a lógica do pensamento de esquerda. 



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Rolezinho? Não, obrigado

No fim do ano passado os chamados, "rolezinhos", começaram a pipocar na mídia. Organizado pelas redes sociais, o rolezinho nada mais é do que um encontro maciço de adolescentes. No entanto, o que parece ser algo corriqueiro se tornou alvo de grandes debates nas redes sociais e na imprensa.

Os rolezinhos são organizados pelo Facebook e seu destino, na maioria das vezes, são os shoppings. Ao procurar no Facebook, o rolezinho aparece aos montes. Como dito, o destino dos rolezinhos são os shoppings e é exatamente em torno desse motivo que os debates têm início.

Após alguns rolezinhos, depredações, roubos e até arrastões ocorreram em shoppings de São Paulo, fato que trouxe medo aos frequentadores e aos lojistas. Incentivados pelos frequentadores e pelos lojistas várias administrações de shoppings têm buscado a via judicial para resolver o problema. O shopping JK Iguatemi conseguiu na justiça autorização para barrar jovens menores de idade na entrada, a fim de fazer uma "seleção" e impedir que o "Rolezaum do Shopim" ocorresse. Cerca de 2.200 pessoas estavam confirmadas no evento do Facebook. Com a medida, o "rolezaum" não aconteceu.

Após todos esses acontecimentos  impossível o assunto não se tornar alvo do debate público. Entretanto, o que alçou esse assunto ao grau de debate público-ideológico não foi o "rolezinho" em si, mas suas conjecturas. 

Os jovens que participam dos "rolezinhos" são em sua maioria vindos da periferia e os locais escolhidos são "considerados"  de luxo. Pronto. Há aí questões para debates acerca do público e do privado, preconceito social, preconceito racial e do velho elitismo. 

Primeiramente, acho importante salientar que os shoppings são espaços privados abertos ao público. Não são espaços públicos, são espaços particulares que são oferecidos ao público em geral para o lazer. Portanto, no meu entender, somente por este motivo os "rolezinhos" não devem ocorrer nos shoppings. Os shoppings estão lá para que todas as pessoas possam se divertir e desfrutar do que o ele oferece. Então, podem dizer que os "rolezinhos" não estão fugindo à proposta de um shopping? Não. Em todos os eventos que pude conferir no Facebook não há intenção de crime, de violência ou coisa do tipo, mas há a intenção de juntar um grande número de adolescentes, num lugar fechado, para, como eles dizem: "zoar um pouco, ouvir um som e beber uns goró." É óbvio que um bando de adolescentes ouvindo som, "zoando" e bebendo uns "goró" não resultará em boa coisa. Principalmente, num local fechado, particular que está ali para outros propósitos. 

Agora, é interessante mencionar outros fatos. Não sou contra o "rolezinho" por que é constituído de jovens da periferia. Se fosse um "rolezinho" de adolescentes de classe média alta eu ainda seria contra. Flashmob é tão idiota quanto "rolezinho". O "rolezinho" não é um "brado de liberdade dos negros da periferia". O "rolezinho" é só zoação. As pessoas que se posicionam contra não  necessariamente têm aversão a gente de periferia. Não está havendo um "apartheid dentro dos shoppings", está havendo baderna. Baderna que deve ser controlada.  

Acho esse assunto algo muito blasé para estarem dando toda esta atenção. Não é necessário que haja debate ideológico em torno disso. Mas a mídia, em sua maioria, esquerdista sempre envenena o debate com ranços ideológicos, velhos e batidos. O "rolezinho" é coisa de adolescente e como coisa de adolescente deve ser corrigido. E nada mais.